Anil
O anil é um corante extraído das folhas da planta (anileira) e o que se usava nas indústrias nacionais chegava, ou do Brasil ou de Espanha. O anil era também cultivado em África, no Senegal, no Egipto, na Ásia, em Manila e Java. O facto de se comercializar em pó ou em pedra, fez acreditar durante muito tempo que se tratava de um mineral e não de um vegetal.
De acordo com os estudos publicados pelo Museu dos Lanifícios da Universidade da Beira Interior, em 1577-78, o anil chega à Inglaterra e à Flandres, pela mão do português Pêro Vaz Devora. Segundo a mesma fonte, no século seguinte (século XVII) os portugueses eram os intermediários do comércio desse corante, sendo também os detentores dos segredos da sua transformação e fabrico.
Luís de Pina, autor da comunicação “Materiais para a História das Ciências no Brasil (Medicina e História Natural)” no congresso do Mundo Português, realizado em Lisboa em 1940, afirma que o governo português autorizou, em 1642, a cultura do anil na colónia brasileira, tendo-se iniciado o seu comércio no Brasil, por volta de 1772.
Cita também um mapa que localiza as fábricas de anil no Brasil e seus fabricantes, datado de 1784. Aliás, os já referidos trabalhos publicados pela Universidade da Beira Interior, referem que o anil fabricado no Maranhão e no Rio de Janeiro durante o século XVIII, era utilizado não só nas tinturarias portuguesas como também nas europeias.» (Cláudia Almeida, 2003, 59).
A cor azul ou índigo das nossas roupas, tornou-se tão comum (por exemplo nos bleu jeans) que nem nos lembramos de perguntar pela sua origem. Hoje as indústrias empregam a tinta sintética, obtida pela primeira vez por J. Bayer, em 1880. Entretanto, há um século atrás, a indústria Basf alemã teve que publicar um livro para divulgar o que considerava “vantagens” na tinta sintética, sobre o corante azul natural usado por toda a parte. Uma das vantagens da tinta sintética, apregoada no livro, era a capacidade de conferir sempre a mesma coloração em condições padronizadas, o que não se conseguia com o corante natural.
O corante natural é obtido, há vários milénios, a partir de plantas como Isatis tictorum e a Indigofera tinctorum,L.. A primeira, comum em climas temperados, produz o “pastel” ou o “ouro azul”, fonte de riqueza de algumas regiões europeias até ao fim do século XVI. Depois o pastel dá lugar ao azul de espécies de Indigofera, provenientes da Índia. Nas Américas, a planta era usada pelos nativos para tingir fios de algodão. Enquanto que noutras regiões os colonizadores procuraram aprender a técnica de produção de tinta azul, no Brasil, a presença da planta nativa no litoral, parece não ter chamado a atenção dos portugueses até finais do século XVII. Um século depois, no entanto, já existiam textos em que se discutia a preparação do anil.
A produção exigia passos razoavelmente conhecidos: partes da planta eram colhidas, geralmente no início da floração, e colocadas num tanque destinado à fermentação. Esse tanque comunicava com um segundo, para onde era transferido apenas o líquido proveniente da fermentação. Aí, este líquido era “batido” durante várias horas, até que dele era se separasse um sólido azul, que era recolhido e posto a secar. O material seco, na forma de “pedras”, era usado para tingir ou branquear fios e tecidos de lã, algodão e seda. Segundo o que se pensava na época, a fermentação promovia a reunião das partículas corantes, daí resultando um líquido verde (mistura de azul e amarelo). O método de “bater” o líquido fermentado, fazia com que as partículas corantes azuis se separassem das amarelas, depositando-se no fundo do segundo tanque.
Hoje, em termos químicos, podemos dizer que o índigo não existe na planta. É a indicona (um glicosídio) que fermenta, produzindo glicose e um leucocomposto que por oxidação origina o corante azul. No século XVIII, centenas de fábricas funcionavam no Rio de Janeiro, na Baía e no Pará. Nesta altura, a quantidade de corante importada por Portugal era suficiente para suprir as necessidades das nossas fábricas e ainda sobrava produto para reexportação. Mas, no século XIX, o comércio começou a declinar. O anil brasileiro não conseguia competir com o indiano, que chegava a Portugal a preços mais baixos. Além disso, o produto brasileiro começava a ficar desacreditado por reclamações de adulteração e má qualidade.
A Basf é hoje responsável por cerca de metade da produção mundial de índigo sintético, sendo poucos os que se dedicam, de forma alternativa, á preparação de índigo de origem vegetal. Mesmo as “pedras de anil”, tão populares há poucas décadas, já não são usadas para clarear a roupa.
TEXTO tirado DAQUI (na verdade um link sobre tapetes de Arraiolos)
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
1 comentário:
Pois é, sou uma das poucas que se dedica a essa forma de tingimento. Estou por esses dias experimentando o tingimento com anil, e está dando tudo errado. Gostaria de trocar informações com alguém que saiba a técnica do tingimento. Até agora só consegui um cinza azulado como resultado final.
Valéria Cavalcanti
valeriasantoscal@hotmail.com
Enviar um comentário